24 de maio de 2008

A Décima Flecha

Aí vai um conto que escrevi há algum tempo, inspirado em uma lenda do folclore chinês:

Esta é uma longa história minha jovem... Eu tinha aproximadamente a sua idade, mas já trabalhava para o Senhor Chiang. Na época eu era a mais bela das garotas, e atendia apenas aos clientes especiais.

Um destes clientes chamava-se Senhor Huizong, um amigo de longa data do Senhor Chiang. Ele era um homem diferente, que nunca quis nada comigo além da minha companhia para jantar e conversar.


Em uma destas noites em que nos encontramos, ele me propôs algo que eu não poderia recusar:

- Minha querida Ann, você já viu uma flecha negra exposta no quarto do velho Chiang?

- Eu nunca entrei no quarto do Senhor Chiang, Senhor Huizong.

- Bem, minha jovem, há milhares de anos havia dez Pássaros-Sol, filhos de Dijun, o deus dos céus. Todas as manhãs, um destes pássaros levantava vôo para trazer luz ao mundo. Um dia, cansados da rotina, todos os Pássaros-Sol levantaram vôo ao mesmo tempo. O calor dos dez sóis foi tão intenso, que rios secaram, colheitas se perderam e homens e animais morreram.

"Yao, o então Imperador da China, implorou pela intervenção de Dijun que, ciente dos problemas causados pelos filhos, convocou Houyi, o grande arqueiro líder da Tribo Youqiong. O trabalho de Houyi seria assustá-los para que não voltassem a causar mais prejuízos.

Houyi, vendo o sofrimento e destruição causado pelos Pássaros-Sol, recolheu-se na mais profunda e escura caverna da China, onde forjou dez flechas a partir da mais pura escuridão. Com as flechas que havia forjado, abateu nove dos Pássaros-Sol. No momento em que iria matar o último deles, foi impedido pelo Imperador Yao, pois isto traria o mundo à total escuridão.

A décima flecha que Houyi não utilizou, Ann, é justamente a flecha que se encontra exposta na parede do quarto do velho Chiang. Consiga esta flecha para mim, e eu a tirarei desta vida."

Na semana seguinte, o motorista chegou para me buscar mas, em vez de encontrar o Senhor Huizong no banco de trás, encontrei apenas um envelope com o seguinte bilhete:

"Na próxima semana realizarei uma grande festa em minha casa, para a qual contratei todas as garotas do velho Chiang.

Entre os convidados teremos o próprio Chiang e seus mais fiéis capangas. Assim, imagino que a festa será um bom momento para você para cumprir, caso deseje, sua parte do nosso acordo.

Cordialmente,

Yi Huizong"

O dia da festa chegou, e todos fomos para a casa do Senhor Huizong. Em meio à agitação subimos até seu quarto. Fechando a porta, olhou-me nos olhos e perguntou calmamente:

- E então, querida Ann, você vai cumprir sua parte do nosso acordo?

- Sim, Senhor Huizong.

- Meu motorista a levará de volta à casa do velho Chiang.

Saí por uma porta que dava em uma escada para um aposento escuro do andar inferior, interditado para a festa. Na porta do aposento para o jardim da casa encontrava-se o motorista do Senhor Huizong.

Chegando à casa do Senhor Chiang, disse aos rapazes que havia sido enviada para buscar mais ópio. O motorista ficou do lado de fora conversando com os rapazes, enquanto eu entrei.

A casa estava completamente vazia e apenas meus passos ecoavam em meio ao silêncio. Para evitar o barulho, tirei meus sapatos e subi rapidamente as escadas para o segundo andar.

Entrando no quarto do Senhor Chiang, encontrei a flecha que o Senhor Huizong havia falado. Ela era negra como a noite, e aparentemente sugava toda a luz do local. Parecia muito antiga, mas ainda assim bastante conservada.

Ao subir na cama para retirá-la da parede, fui surpreendida por um dos rapazes que veio verificar o que eu estava fazendo. Sem ter como argumentar, entreguei-me sem oferecer resistência e confessei meu crime.

O motorista foi baleado e colocado ao meu lado no banco de trás do carro, que foi conduzido de volta à casa do Senhor Huizong. Chegando lá os rapazes informaram ao Senhor Chiang o que havia acontecido, e ele imediatamente assassinou o Senhor Huizong, anunciando a todos que a festa não deveria terminar por causa do ocorrido.

Quanto a mim, bem... O Senhor Chiang não me dirigiu o olhar quando fui levada até ele naquela noite. Era como se eu não existisse. Enquanto a festa durou, tive que atender normalmente aos convidados como as outras garotas, e fomos trazidas para cá no início da manhã, quando todos foram embora.

Ao final do dia seguinte à festa, o Senhor Chiang me chamou até seu quarto. Chegando lá, o encontrei sentado em sua cama, com a flecha negra em suas mãos. Testando o quão afiada era a ponta da flecha, chegando mesmo a tirar sangue do próprio dedo, ele olhou pra mim e disse:

- Você sabe do que esta flecha é capaz, Ann?

- Não, Senhor Chiang.

- Esta flecha é capaz de colocar o mundo em uma era de eterna escuridão. Já imaginou que tipo de criaturas uma noite pode trazer? Imagino que não. Bem, como você demonstrou não saber o que estava fazendo, pouparei sua vida.

"Além disso, Ann, fiquei sabendo que você me traiu porque não queria se deitar novamente com homens que você não desejava. Sendo assim, realizarei seu desejo, deixando-a livre para se deitar apenas com os homens que você quiser. Mestre Zhu, entre, por favor!"

Neste momento entrou no quarto um pequeno senhor chinês, de idade bastante avançada.

- Aqui está sua ferramenta de trabalho, Mestre Zhu. - disse o Senhor Chiang, entregando a flecha negra ao velho.

- Sente-se naquela cadeira, Ann. Rapazes, venham aqui para o caso da senhorita Ann oferecer alguma dificuldade ao Mestre Zhu.

Três capangas entraram no quarto. Dois deles me seguraram junto à cadeira, para que eu não me debatesse, enquanto o terceiro segurou meu rosto. Uma vez imobilizada, o pequeno senhor chinês começou a perfurar meu rosto com a flecha, tatuando o ideograma que hoje você vê.

"O que signigica este ideograma?", você deve estar se perguntando. Bem, minha jovem, este ideograma significa "traidora", e desde este dia nenhum homem quis deitar-se comigo novamente.

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