16 de dezembro de 2008

A porta dos desesperados

- Diz aí...
- E aí? Bão?
- Beleza... Passei no exame para tirar carteira de motorista.
- Ah, é? Parabéns!
- Valeu.
- Vai comprar um carro agora?
- Não.
- Pra que você tirou carteira de motorista, então?
- Para quando eu tiver condições de comprar um carro.
- Ah, claro. Mas até lá já vão ter inventado os carros voadores, tipo o dos Jetsons, e você vai ter que fazer outro exame.
- Claro que não, jacu. Eu estou juntando dinheiro.
- Pensei que seu estágio não fosse remunerado.
- Mas não é.
- De onde vem esse dinheiro que você está juntando? Não precisa dizer, eu já sei: você foi contratado como cozinheiro na casa da Cláudia.
- Nada disso. Esse dinheiro é do estágio que eu estava fazendo. Assim que voltar a receber, eu volto a juntar.
- Saquei. Mas você vai comprar um carro mesmo?
- Eu odeio andar de ônibus.
- Não é o melhor meio de transporte do mundo, mas não precisa odiar.
- Precisa sim!
- Por quê?
- Outro dia eu estava indo com a Cláudia ao Shopping, e havia um cara dentro do ônibus.
- E daí?
- E daí que ele estava com umas 4 crianças, de 5 anos para baixo.
- Até imagino a cena: um com o nariz escorrendo e aquele bigode de meleca seca, outros 2 brigando porque querem se sentar à janela...
- Estavam todos em pé.
- Não havia lugares livres?
- Havia um monte, mas o cara cismou de ficar em pé na frente da porta do ônibus, com aquela criançada toda, bloqueando a passagem.
- Era só pedir licença.
- Eu pedi, mas parecia que ele não entendia o que eu estava falando, porque ficava insistindo para que eu e a Cláudia nos sentássemos nos lugares livres.
- Vai ver era estrangeiro.
- O pior é que ele me atrapalhou na hora de descer do ônibus!
- Você desceu no ponto errado, por causa dele?
- Não.
- Então você não tem do que reclamar...
- Tenho sim, porque, por causa dele, eu fiquei preso na porta do ônibus!
- Como assim?
- Nós demos o sinal para o ônibus parar. Eu pedi licença e o cara não saía da frente! Ele só ficava falando que os lugares estavam livres, e eu tentando explicar para ele que queríamos descer!
- Ele só falava isso?
- Bom... Antes ele tentou me vender um vasinho de planta que estava carregando.
- Hã?
- É... Ele estava com um vasinho de planta na mão, e perguntou se eu gostaria de comprá-lo.
- E você falou o quê?
- Eu estava puto da vida, porque precisávamos descer e ele estava bloqueando a saída!
- Imagino.
- Só sei que por fim ele conseguiu perceber que nós queríamos descer, mas não deu tempo! A porta do ônibus se abriu, a Cláudia conseguiu passar e descer. Eu tive um pouco de dificuldade pra passar e, quando estava atravessando a porta, ela se fechou em mim!
- Sério?
- Sério!
- E aí?
- E aí que eu fiquei preso, com metade do corpo pra fora do ônibus.
- Putz!
- O ônibus começou a sair do ponto e eu lá, meio pra dentro e meio pra fora...
- Pagou meia passagem pelo menos?
- Engraçadinho... O motorista só parou o ônibus porque o pessoal começou a gritar!
- Você conseguiu ouvir o pessoal gritando?
- Minha cabeça ficou na metade de dentro.
- Ah, tá... Não deu tempo de passar as orelhas, né?
- Foi a porcaria do cara que me atrapalhou!
- E você machucou?
- Minhas costas ficaram doendo um pouco.
- E o motorista não parou pra ver se você havia se machucado?
- Não. O merda abriu a porta, eu desci e ele foi embora.
- O bom do Brasil é o brasileiro.
- Pois é.
- Mas você conseguiu descer no ponto certo?
- Consegui.
- Então não reclama.

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