21 de dezembro de 2008

Então é Natal

"Então é Natal", já diria a versão chatíssima de "So This Is Christmas", que a Simone gravou há uns 182 anos atrás. A versão original é muito chata também, como grande parte da carreira solo do John Lennon (o que não vem ao caso), mas a versão da Simone superou. O pior é que esta versão da Simone não superou a original só em chatice, como também deve tê-la superado em número de reproduções, porque, em muitas das lojas que você visitar nesta época do ano, você poderá ouvi-la ao fundo, tocando insistentemente como um lamento infindável. Só para se ter uma idéia: se essa música rendesse à Simone R$1,00 para cada vez que fosse tocada em uma loja, ela provavelmente estaria tão rica quanto Warren Buffett, o homem mais rico do mundo segundo a Forbes.

Tirando essa música da Simone, eu gosto do Natal. A casa fica cheia de presentes... Para os outros, é claro: é presente para a mãe, pro pai, para a avó, pra cunhada, pro sogro, para aquela sua tia "que me trata tão bem", como diria sua esposa. Enfim, presente para todo mundo! Aliás, nesta época do ano os shoppings e lojas ficam abarrotados de gente, porque todo mundo saiu para comprar presentes para todo mundo. O que é engraçado, entretanto, é que no final das contas, ninguém ganha nada. Aqueles presentes todos desaparecem.

Na verdade alguns presentes aparecem. Você sempre vai ganhar uma cueca ou meia de algum tio, assim como seus irmãos e primos ganharão uma cueca ou meia parecida com a que você ganhou. Lá pro final da festa esse seu tio vai chegar para você, bastante bêbado (ele, não você... ou você também, talvez), colocar a mão no seu ombro, olhar para um ponto no infinito e dizer:

- Olha, eu estou muito apertado nesse final de ano, mas comprei uma lembrancinha pra você... É coisa simples, não leva a mal, mas é de coração...

E então te dá um abraço apertado e suado. O suor vai se misturar aos respingos de saliva (todo bêbado fala cuspindo), ele vai se afastar e você vai ficar com aquela sensação de que foi mastigado por um ogro que bebeu demais... Mastigado talvez seja exagero, mas abraçado por um ogro manguaçado, com certeza. Mas isso não vem ao caso, já que o assunto é Natal...

Esse seu tio deve estar realmente apertado, porque não é todo mundo que ganha dinheiro como a Simone nesta época do ano, que provavelmente lançou outro CD contendo "Então é Natal", o lamento natalino que é "a mais pedida na agulha de ouro do Vitrolão do Sucesso". O Natal tem dessas coisas: às vezes a pessoa está mal de grana, mas se esforça para dar um presentinho para todos. "Por que as pessoas fazem isso?", você deve estar se perguntando. Porque o Natal é uma época de milagres, e um milagre que ocorre bastante nessa época do ano é o "milagre natalino da multiplicação das cuecas e meias". O truque é simples: compre um pacote de cuecas ou meias, abra-o e presenteie seus sobrinhos, cada um com uma cueca ou par de meias. Cada pacote vem com, no mínimo, três pares de meias ou cuecas e você, gastando pouco, presenteia várias pessoas.

Os presentes, de qualquer forma, aparecem, e estou sendo um pouco injusto ao falar que ninguém ganha nada. Eu mesmo sempre ganhei muitos presentes no Natal. Na verdade eram presentes "de Natal e aniversário", porque nasci no dia 25 de dezembro. Quando criança eu achava isso muito revoltante (mais até do que ganhar roupas), porque eu queria ganhar dois presentes: um para o Natal e outro para o aniversário. De preferência dois brinquedos. Um presente só para as duas ocasiões era muita sacanagem, pensava eu. Hoje em dia eu até saio no lucro, porque as pessoas não têm vergonha de deixar de te dar um presente de Natal, mas aniversário...

Aliás, quem fica doido com esse negócio dos presentes de Natal é menino. Eu mesmo, quando criança, ficava ao lado da árvore durante a festa toda, só esperando a hora de distribuírem os presentes. Um ansioso em formação, como meus primos pequenos, que se embrenhavam na pilha de presentes como garimpeiros, tentando encontrar os que estavam destinados a eles:

- O que você está fazendo aí?
- Estou tentando achar meus presentes.
- Você não vai ganhar nada.
- Vou sim. Você que não vai.
- Eu sempre ganho. É meu aniversário amanhã.
- Mas você só ganha um.
- Quem disse?
- Minha tia... Ela falou: "Ainda bem que o Gu faz aniversário no Natal, porque eu só preciso comprar um presente pra ele."
- Ela falou isso?
- Falou. Achei! Aquele grande ali é meu!
- Não sabia que você se chamava "Vovó".
- Meu nome está escrito ali!
- Está mesmo: "De Thiago para Vovó".
- Hmpf!

Outra coisa boa do Natal, além dos presentes (que eu continuo ganhando, lembre-se), é a festa propriamente dita. Família grande reunida, muita comida, muita bebida e, é claro, briga. No final (quase) todo mundo fica "de bem", mas festa de Natal que se preze tem que ter briga. Se não tiver briga, é porque todos estão sem conversar uns com os outros desde a briga da festa de Natal do ano passado...

Bom, para concluir, já que esse texto ficou maior do que eu esperava, gostaria de desejar aos três leitores deste blog um feliz Natal e boas festas.

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