1 de março de 2009

Alta ansiedade

Acabei de ler uma matéria da Revista Época a respeito do uso de medicamentos no Brasil, sobretudo o Rivotril, usado para tratar da ansiedade. É assustador.

No Brasil esse medicamento é o segundo mais vendido e os médicos o receitam para tratar qualquer coisa que eles identifiquem como ansiedade.

Nosso sistema de sáude é precário, os médicos muitas vezes tem pressa nos atendimentos e, assim que os pacientes chegam se queixando de seus problemas, a solução acaba sendo dada rapidamente.

É um remédio barato e que "alivia" os problemas do paciente. Digo "alivia" porque ele não trata da questão verdadeira.

O que é a ansiedade? Por que ela existe e, o mais importante, por que nos dias de hoje tornou-se tão insuportável lidar com ela?

As pessoas não querem mais se frustar, não querem ter problemas e diante de uma situação onde não se sentem confortáveis se deseperam...

Gente vamos combinar que ninguém quer problemas por perto. Mas eles existem. Vivemos num mundo corrido, violento, com pessoas diferentes e temos que saber que enfrentaremos situações ruins.

Mas o brasileiro, que é tido como um povo feliz, está consumindo 14 milhões de ansiolíticos por ano (ano de 2008 de acordo com a revista).

É claro que em muitos casos ele deve ser usado, mas o ideal é seu uso junto com outros procedimentos, como psicoterapia, mudança na qualidade de vida, alimentação, companhias, uma vida mais feliz. No entanto eles (os pacientes) preferem o remédio porque o "alívio" é mais rápido e fácil.

O problema é que realmente qualquer coisa que incomode um pouco deve ser eliminada rapidamente.

A ansiedade não é completamente ruim. Basta a canalizarmos para o lado bom, e nos tornamos produtivos, pró-ativos.

Para completar segue um texto do jornalista João Pereira Coutinho:

Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!

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