7 de julho de 2009

Sempre alerta

Alexandre foi escoteiro quando criança. Em sua mente infantil ele imaginava que, ao entrar para o movimento escotista, participaria de aventuras como os sobrinhos do Pato Donald, além de poder usar um chapéu parecido com o do Daniel Boone. Infelizmente nada disso aconteceu.

Durante o curto período em que foi escoteiro, Alexandre participou de um único acampamento. Sua mãe, ultra neurótica e bastante preocupada com os "perigos que o filho poderia correr", fez com que ele levasse uma frasqueira abarrotada de remédios:

- Que mala é essa, mãe?
- Não é uma mala, meu filho. É uma frasqueira. São só alguns medicamentos para você levar ao acampamento.
- Ai, ai...
- Não reclama, Alexandre. Você pode precisar.
- Pesada, hein?
- Coloquei só o necessário, meu filho.
- Deixa eu ver... An-ti-de-pres-si-vo. O que é isso, mãe?
- Um remédio, meu filho.
- Eu sei, mãe. Estou perguntando para que ele serve.
- Uai, meu filho, para combater a depressão.
- E o que é depressão, mãe?
- Depois te explico... Acho que você não vai precisar desse, afinal de contas. Vou devolver à sua tia.
- E esse aqui, mãe?
- Esse aí é para a sua asma.
- Eu não tenho asma, mãe.
- Ninguém sabe o que pode acontecer com você naquele acampamento frio, meu filho.
- Mãe, olha... Você não acha que tem muito remédio nessa mala?
- Claro que não, meu filho. Você pode precisar.
- Tem tanto remédio que dá pra abrir uma farmácia, mãe!
- Não reclama, garoto, senão eu te proíbo de ir ao acampamento!
- Não! Não, mãe! Por favor! Eu levo os remédios! Eu até tomo alguns, se você quiser, mas me deixa ir ao acampamento!
- Estou fazendo isso pela sua segurança, filho.
- Eu sei, mãe...

E lá se foi Alexandre ao acampamento, carregando a frasqueira que correspondia a 60% do peso total carregado por ele, transformando a caminhada de 6km até a área de camping em um martírio.

Quando voltou, Alexandre disse que os dias de acampamento "foram chatos" porque não havia nada pra fazer, e que ele "não conseguia fazer cocô no mato". Sua mãe estava bastante feliz com o retorno do filho, mas ficou preocupada ao saber que uma vaca havia comido todas as frutas e legumes deixados em uma espécie de dispensa improvisada, já que o animal poderia ter mordido o garoto:

- Conta direito essa história do acampamento, meu filho.
- Uai, mãe... Bom, eu não precisei de nenhum daqueles remédios que você me mandou levar.
- Ainda bem, meu filho! E essa vaca que comeu as frutas?
- O que tem?
- Ela te mordeu?
- Claro que não, mãe! A gente acha que foi uma vaca que comeu as frutas, mas ninguém viu nada. Pode ter sido um ladrão, né?
- Pelamordedeus, meu filho! Não brinca com uma coisa dessas!
- Tá bom, mãe...
- Olha, meu filho... Eu acho melhor você parar com esse negócio de escotismo. Estou achando muito perigoso para você.
- Eu já estava pensando em sair mesmo, mãe.
- É mesmo, meu filho?
- É.
- Ai, que bom!
- Esse negócio é muito chato! Tudo que eu fiz foi ficar lavando panela no rio! Além do mais, fazer cocô no mato e dormir em barraca é muito ruim! Não sei como alguém consegue gostar de uma coisa dessas!
- Eu também não, meu filho... Eu também não...

Um comentário:

Daniel disse...

Aposto que essa história é de alguém que eu conheço.
Muito boa!