1 de setembro de 2009

Vergonha e Preconceito

Quem me conhece sabe que adoro um papo, com raras exceções. Conheço uma pessoa e logo logo ela está me contando tudo da sua vida. Comigo sempre foi assim. Acho que é porque gosto de gente e de saber suas histórias. Só que tem dias em que você encontra alguém desagradável, que não deveria nem sair de casa, quanto mais ter aprendido a falar, porque a pensar eu acho que elas definitivamente não aprenderam...

Hoje, na sala de espera do médico, me deparei com uma pessoa extremamente desagradável. Eu não estava a fim de papo, queria só ser atendida e vir embora pra casa tomar uma água e fugir desse calor horroroso. Mas eu atraio...

Ela sentou e já começou a falar, numa associação livre que faria inveja a qualquer paciente em terapia.

Difícil entender a linha de raciocínio da mulher. Num determinado momento, ela começa a falar de um programa de TV, jurando que um dos convidados que se dizia heterossexual estava mentindo. Para ela o cara deveria se assumir ali mesmo, em frente às câmeras, sem se preocupar com sua esposa e família. Essa mulher dizia ainda que gay não é normal, e que acha inaceitável existir uma família que não seja papai, mamãe e filhinhos. Segundo ela, um casal de gays não seria capaz de criar filhos porque Deus não aceita isso, e que esse filho cresceria com problemas e precisaria de muita terapia.

Eu não gostei do jeito dela e principalmente das coisas que ela falava. Anormal é ela que ainda pensa assim, e ainda é capaz de gritar na sala de espera, o que fazia todo mundo olhar pra nós.

Falei para ela a minha opinião, que é completamente contrária à dela, dizendo que desde que o casal (aí não importa se é mulher-homem, mulher-mulher, homem-homem, mulher-homem-homem ou mulher... Ui!!! Fiquei até confusa. São tantas possibilidades..) se respeite, que haja entre eles um acordo e eles expliquem pra criança como é aquele ambiente, não há problema nenhum.

Mas a pessoa insistia que não era aceitável, e num determinado momento começou a falar sobre fetiches. Perguntou se eu assistia um programa de sexo que passa na TV, que mostra diversas formas de diversão para adultos. Além de não ficar confortável com ela gritando os tipos de fetiches que ela achou estranho, achei curioso que uma pessoa tão pudica e conservadora assistisse esse tipo de programa. Mas é como dizem, quanto mais cheia de conservadorismo é a pessoa, mas desejos reprimidos ela tem.

Falei que a TV está aí pra todos os gostos, tamanhos e, especialmente pra ela, fetiches. E que assiste quem quer. Mas ela insistia na questão dos gays. Cheguei a pensar se ela estava me testando, pra ver se eu topava um café mais tarde, mas ela viu que essa não era minha praia.

Até Nero e Julio César entraram na história. A conversa acontecia, e eu doida pra ser chamada pelo médico. Cheguei a levantar 2 vezes, falar que estava atrasada, e nada dela sair dali, ou parar de falar essas bobagens.

O fato é que ela me deixou muito constrangida, mas não do tipo que me dá vontade de abraçar a pessoa e ajudá-la a sair da situação constrangedora (como me deu vontade de fazer com a Vanuza, ao errar o hino nacional). Era um constrangimento por ela ser tão burra e tão cega na sua ignorância, que me fez pensar como que uma pessoa ainda pode determinar se uma pessoa é boa ou não, merecedora do apreço dela ou não, pela opção sexual.

Parece um assunto tão bobo, tão falado e que a gente acha que não tem mais tabu, mas tem sim. Tem de forma velada e de forma explícita, como o caso dela. Aliás, não tiro o direito dela de dizer o que pensa. Não é essa a questão. O que me incomodou foi ela achar que os gays não são normais, e o preconceito e intolerância estampados nela, fora a certeza que ela demonstrou de que o melhor pra ela é o melhor para o mundo. Se fosse assim, se o melhor pra gente fosse o melhor pro mundo, eu gostaria que ela desaparecesse. Será que vai funcionar? Tô tentando...

Um comentário:

Vinícius disse...

Situação difícil. E é por isso que peço paciência e tolerância ao acordar, do contrário, sabe-se lá o que poderia acontecer!! Bom texto!