7 de janeiro de 2010

Tocando o terror na criançada

Imagino que a humanidade inventou as histórias de terror quando o homem primitivo descobriu que uma alternativa para acabar com a bagunça de seus filhos era amedrontá-los, em vez de espancá-los até a morte:

- Quem derrubou a minha coleção de pedras?
- Não fui eu!
- Eu já falei que dentro da caverna não é lugar de brincar!
- Não fui eu, pai! Foi o Uglûhk-ük!
- Mentira! Foi ele sim!
- Calem a boca, vocês dois! Ou eu...
- Ou o que, pai? Você vai bater a minha cabeça na parede, igual você fez com o Glùhk-khk?
- Não. Aquilo fez a maior sujeira e sua mãe briga comigo até hoje por causa da mancha!
- Você vai fazer o que então, pai?
- Eu vou chamar o... Eu vou chamar o Bicho-Papão para pegar vocês!
- O Bicho-Papão?!
- É!
- Quem é o Bicho-Papão, pai?
- Um bicho que vai comer vocês!
- Tipo aquele que comeu o Ukh-ükh-ghâlùkh, pai?
- Não. Aquele era outro! Se o seu irmão tivesse corrido mais rápido...
- Eu corro rápido!
- Mas ninguém consegue correr do Bicho-Papão!
- Então eu não vou mais brincar dentro de casa!
- Nem eu!

Com o passar do tempo, novas figuras foram adicionadas à lista de criaturas que não têm nada melhor para fazer da vida do que raptar crianças desobedientes, como o Monstro do Armário, o Homem do Saco ou o Tutu, que é uma variante do Bicho-Papão e dá a impressão de se tratar de uma grande massa de feijão batido, com ovos cozidos no lugar dos olhos.

Não me lembro da minha mãe usar deste artifício de monstros devoradores/sequestradores de crianças, mas quando o bicho pegava e atingíamos o limite de sua paciência, ela partia para uma linha mais dura de ameaça: "Um dia vocês vão acordar e eu vou ter sumido de casa!". Isso tinha bem mais credibilidade e dava muito mais medo que um monstro que parecia ser feito de feijão. Aliás, para se ter uma ideia de sua criatividade, quando aos 3 anos de idade eu tive que começar a usar óculos, ela me colocou em frente ao espelho e disse:

- Está vendo esse olho seu? Viu como ele está virando para dentro? Se você não usar os óculos, seu olho vai entrar para trás do seu nariz e o médico vai ter que enfiar uma faca DESSE TAMANHO para tirar o seu olho para fora!

Um argumento tão eficiente, que eu nunca mais pensei em tirar os óculos. Por sua vez, um amigo do meu pai conseguiu ser mais... inventivo. Viúvo, certa vez precisou manter os filhos quietos enquanto não estivesse por perto. Como solução, ele retirou o seu olho de vidro, colocou-o sobre a cômoda e disse algo do tipo:

- Eu vou tomar banho, mas estarei de olho em vocês! Portanto, todo mundo quieto aí!

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