13 de abril de 2010

Causos

Texto baseado em histórias que o avô de um colega meu contava aos netos:

Não sei se já te contei essa história antes, mas você sabia que até o início do Século 20 os relógios de pulso eram acessórios exclusivamente femininos? Pois é, foi no período da Primeira Guerra Mundial que os homens, que até então portavam apenas relógios de bolso, passaram a utilizar os modelos de pulso, pela sua facilidade de acesso. Interessante, não? Mas vamos voltar à história...

Quando eu tinha mais ou menos a idade do seu irmão mais velho, uma onça apareceu nas redondezas da fazenda do meu pai. Toda semana ela matava pelo menos um bicho, e o meu pai, que já não estava muito bem de saúde, me pediu para caçá-la.

Como de costume em minhas caçadas, eu levei esse relógio que você está vendo. Na época ele era mais brilhante. Hoje em dia ele está bastante arranhado, mas continua funcionando que é uma beleza... Pois bem, antes de entrar na mata, eu coloquei o relógio no galho de uma árvore, para que eu pudesse me orientar pelo seu tic-tac e não perdesse o caminho de volta.

O ar estava abafado e úmido naquele dia, porque havia chovido muito na noite anterior, e o cheiro de mato molhado ainda era forte. Eu entrei na mata de espingarda na mão, atento a qualquer barulho. Caminhei durante uma meia hora, quando vi as pegadas da onça na lama que começava a secar. As marcas eram grandes e fundas, indicando um bicho parrudo.

Segui os rastros da onça e dei de cara com o rio. Procurei a fera por perto e nada. Quando eu já havia desistido e começava a voltar pra casa, uma coisa se mexeu num arbusto perto de mim! Apontei a espingarda na direção, a tempo de ver um gambá sair do mato e correr em direção à água. Quando abaixei a arma, a onça pulou de trás do arbusto, em minha direção! Tentei dar um tiro, mas errei a mira e o tiro resvalou numa pedra. Tentei outro tiro no desespero, mas a espingarda estava descarregada! A última coisa que me lembro dessa hora foi aquela bocona se aproximando, com os dentes do tamanho de uma faca, e tudo ficando escuro...

Você pode não acreditar, mas quando acordei, eu estava dentro da barriga da onça! Para a minha sorte, eu tinha comigo o meu canivete e com ele cortei a barriga do bicho por dentro. Eu consegui sair, tomei um banho rápido no riacho, para tirar o sangue e a sujeira da onça do meu corpo, e parti rumo à fazenda.

Eu estava tão desorientado com o que aconteceu, que na hora nem me preocupei com o relógio que eu havia deixado na árvore!

Anos depois, quando o meu pai faleceu, eu passei a cuidar da fazenda. Foi então que outra onça apareceu e eu saí para caçá-la. Assim que entrei na mata para procurá-la, escutei um tic-tac... Caminhei pela mata durante um tempo, seguindo aquele tic-tac. Quando percebi, estava em frente à árvore na qual eu havia deixado o meu relógio anos antes. Procurei e procurei o relógio, mas nada! Procurei mais um pouco e, por fim, me cansei e deitei sob a sombra da árvore. Fiquei lá um tempo, matutando sobre a vida, quando percebi uma coisa brilhando entre as folhas da árvore. Apertei os olhos para ver direito o que era, e você não adivinha o que eu encontrei lá em cima: o meu relógio!

A árvore cresceu, e o galho em que eu deixei o meu relógio foi parar lá em cima. O melhor de tudo é que ele ainda estava funcionando! Mas chega de história por hoje. Outro dia o vô conta como conseguiu esse relógio, está bem?

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