12 de abril de 2016

365 Vidas - The 7th Guest


O primeiro computador que meu pai comprou – um 386 com impressionantes 2MB de memória RAM, placa de vídeo VGA e um gigantesco “winchester” de 24MB, se não me engano – tinha dois drives de disquete: um de 5¼ e outro de 3½ que, por incrível que pareça, ainda não vinha por padrão.

A evolução das mídias nos trouxe a um momento em que já se vendem computadores sem leitores de discos óticos, mas houve uma época em que o suprassumo da ostentação geek era ter em seu computador um kit multimídia, do qual o coração era um moderníssimo drive de CD-ROM.

Por conta do espaço praticamente ilimitado da mídia, empresas como a LucasArts e Sierra relançaram seus clássicos em versão CD, com vozes dubladas e trilha sonora regravada, enquanto outras partiram para gráficos de alta definição (640x480) e o que existia de mais moderno: vídeos digitalizados.

A Trilobyte Games foi uma das primeiras a pular nesse trem com o clássico The 7th Guest, cujos gráficos 3D pré-renderizados e as cutscenes com atores reais eram o estado da arte, um exemplo das infinitas possibilidades que o futuro oferecia.

O jogo se passa na mansão de Henry Stauf, um ex-andarilho e pequeno criminoso que, em uma tentativa de assalto, acaba por assassinar a idosa que fez de vítima. Na mesma noite em que cometeu esse crime hediondo, Stauf tem a visão de uma boneca que ele replica em madeira. Outras visões dão origem a novos brinquedos que, de tão procurados pelas crianças, levam-no a uma vida de riquezas.

Mas as crianças começam a morrer, vítimas de uma doença misteriosa, e Stauf torna-se um recluso. Quando ninguém lembrava mais da sua existência, o antigo fabricante de brinquedos convida seis pessoas à sua mansão para um jantar. Àquele que conseguir solucionar todos os puzzles criados pelo anfitrião, uma promessa: a realização do seu maior desejo.

Apesar de ser classificado como aventura gráfica, The 7th Guest é, de fato, uma coleção de puzzles meio desconectados da história principal, que você - no comando de uma entidade sem memória, denominada Ego - soluciona para liberar novas áreas da mansão. Um puzzle específico, que envolve ordenar latas de mantimentos na dispensa para formar uma frase, é impossível de solucionar sem a consulta a um walkthrough, mas me parece que a maioria dá para encarar.

The 7th Guest tem muitos defeitos: sua direção de arte não envelheceu bem como a de The Last Express; a trilha sonora tem um volume muito alto em relação aos diálogos que, para piorar, não possuem legendas; os atores beiram o amadorismo, de tão exageradas são suas atuações, e a falta de sincronia com a dublagem deixa as cutscenes com cara de filme trash. Entretanto, é no clima mezzo horror/mezzo mistério que o jogo tem seu ponto forte.

Um fato curioso: a Nintendo chegou a licenciar The 7th Guest com exclusividade para seu SNES-CD, um console que nunca saiu do papel, e diz a lenda que o objetivo era impedir que o jogo não fosse lançado para o Sega CD. Se isso é verdade ou não, o fato é que atualmente até os usuários de iOS e Android podem vagar pela mansão de Henry Stauf e solucionar seus puzzles.

Ao sair do jogo uma voz grita cheia de desespero e ódio: “Come back!!!”. Não se preocupe, Stauf, eu voltarei.

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