16 de novembro de 2015

De Volta a Twin Peaks - Primeira Temporada, Episódio 3

De Volta a Twin Peaks - Primeira Temporada, Episódio 3

Três dias após ter sido encontrado às margens do rio, enrolado em plástico, o corpo de Laura Palmer finalmente será enterrado no cemitério de Twin Peaks, uma pequena cidade onde a morte de uma jovem de 17 anos não é mais uma a entrar para as estatísticas; lá toda vida importa, toda vida faz sentido.

Laura Palmer era uma garota bonita e popular. Além de trabalhar como vendedora de perfumes na loja de departamento Horne's, Laura dava aulas de inglês a Josie Packard, era voluntária no programa Refeições sobre Rodas e ainda assistia Johny Horne, o filho mais velho do figurão Benjamin Horne. Mas a jovem também tinha um lado sombrio...

Todos que conheciam Laura Palmer foram afetados, de alguma maneira, por sua morte. Bobby Briggs, o quarterback valentão e histérico com quem a jovem mantinha um namoro oficial, interrompe o funeral da rainha do baile aos berros:

– "Vocês me enojam. Vocês, malditos hipócritas, me enojam! Todos sabiam que ela estava com problemas, mas não fizemos nada. Todos vocês. Vocês querem saber quem matou Laura? Vocês a mataram! Todos nós a matamos."


A trama do terceiro episódio de Twin Peaks começa no café da manhã, com um inofensivo diálogo entre Audrey e Dale Cooper, no qual o agente confirma a jovem como sendo a responsável pela dica para investigar o cassino/bordel One-Eyed Jack's. A conversa, que gira em torno do desejo da garota em ajudar na investigação, é interrompida com a chegada do xerife Truman e Lucy, completamente ansiosos por saber quem é, afinal de contas, o assassino de Laura Palmer, dando sequência ao cliffhanger do episódio anterior.

Cooper explica ao xerife e sua assistente o estranho sonho que teve, um sonho que, segundo o agente, é um código aguardando ser decifrado. "Decifre o código, resolva o crime.", ele diz, mas já entrega o nome do assassino: BOB. Quem lhe deu essa informação no sonho foi MIKE, o homem de um braço só, mas o sonho continua 25 anos depois, no salão de cortinas vermelhas; ao final, uma jovem bastante parecida com Laura Palmer sussurra no ouvido de Cooper o nome do assassino, mas ele se esquece do que ouviu ao acordar.


Esse terceiro episódio da série é o primeiro no qual David Lynch e Mark Frost não têm participação alguma. A direção ficou por conta de Tina Rathborne, que até conseguiu emular um pouco o estilo de Lynch, e o roteiro é de Harley Peyton, que também roteirizou boa parte dos episódios da segunda temporada, da qual foi o produtor.

Após um episódio tão marcante como o anterior, fica difícil a tarefa de se produzir qualquer coisa no mesmo nível, mas Harley Peyton conseguiu tirar da manga algumas cenas bastante memoráveis. A primeira envolve uma briga entre o rude Albert Rosenfield e o manso Dr. Hayward para a liberação do corpo de Laura, briga esta que termina com o agente do FBI levando um soco do xerife e caindo sobre o corpo da jovem; a segunda gira em torno de outra confusão, desta vez no enterro, quando Leland Palmer se joga sobre o caixão da filha, em um momento simultaneamente trágico e cômico.


Em uma obra com tantos personagens, é natural imaginar que alguns sejam desenvolvidos com o passar dos tempos. Assim acontece com Leland Palmer, o pai da personagem principal, mas até então relegado a participações bem limitadas. No episódio anterior vemos Leland dançar, desolado e desorientado, com um retrato de Laura nas mãos. Nesse terceiro episódio sua primeira aparição se dá em casa, com uma enfermeira lhe administrando algum tipo de sedação, quando uma nova personagem é apresentada: Maddy Ferguson, a prima de Laura, também interpretada por Sheryl Lee, agora em versão morena e de óculos.

A cena em que Maddy aparece é muito bem bolada, com as falas da metanovela Convite ao Amor servindo de comentário ao que se desenrola: além de existirem duas personagens, uma recatada e outra selvagem, interpretadas pela mesma atriz, ali vemos também um pai desesperado, à beira de cometer suicídio. Poucos momentos depois, o mesmo Leland que assistia ao drama de Jared Lancaster em Convite ao Amor salta para dentro da cova na qual sua filha estava sendo enterrada, como numa última tentativa desesperada de também ser levado pela morte.


Twin Peaks é uma cidade diferente, meio desconectada do resto do mundo, e seus bosques antigos são habitados por um Mal ancestral combatido por um grupo de homens há várias gerações. Este grupo de vigilantes, atualmente composto pelo xerife Truman, Big Ed, agente Hawk e os motoqueiros James Marshall e Joey Paulson, se reúne na cafeteria Book House – daí o nome de Book House Boys –, e sua missão atual é dar fim ao tráfico de drogas que se estabeleceu na cidade através do barman Jacques Renault, que descobrimos estar ligado ao casca-grossa Leo Johnson.

Neste ponto da história, já não é muito de se estranhar que Dale Cooper, um agente do FBI pouco convencional, aceite o convite para participar de um grupo secreto que age às margens da lei, pois Cooper abraçou o estilo de vida de Twin Peaks, uma cidade em que praticamente todos vivem vidas duplas.

- Ouvindo: The Cure - A Night Like This

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