9 de novembro de 2015

De Volta a Twin Peaks - Primeira Temporada, Episódio 2

De Volta a Twin Peaks - Primeira Temporada, Episódio 2

Pouco mais de 3 anos antes do assassinato de Laura Palmer, o agente especial Dale Cooper teve um sonho. Este sonho o levou a solidarizar-se com a causa tibetana, mas também deu ao agente, de forma inconsciente, uma técnica dedutiva que envolve uma "coordenação entre corpo e mente, operando em conjunção com um profundo nível de intuição".

Reunido com um seleto grupo de membros do corpo policial de Twin Peaks – xerife Truman, Lucy, agentes Hawk e Andy –, Cooper utiliza esse método heurístico peculiar para reduzir uma lista de suspeitos levantada com base em uma passagem escrita no diário de Laura Palmer em seu último dia de vida: "Nervosa por encontrar com J hoje à noite".

A lista de pessoas ligadas à vítima e que possuem a letra "J" no nome é pequena: James Hurley, o namorado secreto; Josie Packard, que recebia aulas de inglês com Laura; Johnny Horne, um jovem com necessidades especiais assistido pela garota; Norma Jennings, coordenadora do programa Refeições sobre Rodas, do qual Laura participava; Shelly Johnson, amiga da vítima; os maiores suspeitos Dr. Jacoby, psiquiatra de Laura, e Leo Johnson, marido barra pesada de Shelly e aparentemente sem ligação alguma com a rainha do baile.


Diferente dos episódios anteriores, nos quais a trama se desenvolveu a partir das primeiras horas do dia, este começa na noite do dia anterior, na sequência imediata dos eventos mostrados no primeiro episódio, com uma longa e desconcertante cena de um jantar da família Horne. Não se ouve nada além do barulho de talheres, nenhuma palavra é trocada entre os presentes. O silêncio só é interrompido com a chegada de Jerry Horne, o agitado irmão do figurão Benjamin Horne.

A cena bizarra que se segue após a chegada de Jerry – outro personagem bastante idiossincrático, como era de se esperar – envolve sanduíches de queijo brie e manteiga na baguete francesa, além de comentários de natureza, no mínimo, dúbia. Os irmãos acabam, por fim, deixando as dependências do hotel Great Northern para dirigir-se ao cassino/bordel One-Eyed Jack's, no lado canadense da fronteira, onde um deles terá a oportunidade de conhecer, em primeira mão, a nova garota do local.


A noite em Twin Peaks é tenebrosa. Isso fica bem claro na sequência em que Bobby e Mike embrenham por entre os pinheiros para uma transação de drogas. A cena é filmada de forma brilhante, com a iluminação limitada às lanternas dos personagens e a câmera às suas costas; a sensação de angústia e apreensão é palpável, pois a qualquer momento algo (ou alguém) pode aparecer no meio daquela escuridão absoluta. O susto, entretanto, só não acontece por uma questão de ritmo e, talvez, edição.

O dia, por sua vez, é normal – até onde isso é possível – e passa rápido nesse episódio: Cooper demonstra seu método dedutivo ao xerife Truman e companhia limitada; Audrey e Donna encontram-se no RR Diner, conversam sobre paixonites e Laura Palmer; uma nova evidência surge na proximidade do local do crime; o antipático, mas eficiente, agente do Albert Rosenfield chega a Twin Peaks para realizar, de forma devida, como ele faz questão de ressaltar, a autópsia em Laura Palmer.


A escuridão retorna e com ela novas surpresas. A primeira é o fato de que, dessa vez, é Leland Palmer que demonstra sinais de que a morte da filha cobrou muito da integridade psicológica dos pais. Ao som de Pennsylvania 6-5000, Leland dança desesperado com o retrato da filha em mãos. Sarah Palmer, até então a mais abalada com a morte de Laura, surge como a voz da razão: "O que está acontecendo nessa casa?!"

A segunda surpresa que a noite traz se dá em uma das cenas mais memoráveis de Twin Peaks – e talvez da TV –, com o sonho de Dale Cooper. Inicialmente, imagens desconexas alternam-se na tela: um Dale Cooper mais velho, em um salão coberto por cortinas vermelhas; Sarah Palmer descendo as escadas de sua casa; Laura Palmer deitada na mesa do necrotério; um tecido sujo de sangue; o homem tenebroso de cabelos brancos visto por Sarah; um homem sem o braço esquerdo recitando um verso:

"Através da escuridão
do Futuro Passado
o mago deseja ver
alguém canta
entre dois mundos
Fogo – anda comigo."

O homem de um braço só segue dizendo que vive sobre uma loja de conveniências; seu nome é MIKE e ele foi tocado pelo Mal. O homem tenebroso de cabelos brancos aparece novamente; seu nome é BOB e ele voltará a matar.


A cena que se segue, provavelmente, é a mais referenciada quando o assunto é Twin Peaks: o Dale Cooper mais velho volta a aparecer no salão de cortinas vermelhas. Acompanhando Cooper, um homenzinho de roupas vermelhas e Laura Palmer... ou alguém idêntica a ela. Ambos falam de trás pra frente, e todas as frases são estranhas como "O chiclete do qual você gosta voltará à moda."

No mundo real, o agente Cooper acorda no meio da madrugada, liga para o xerife e fecha o episódio com um dos maiores cliffhangers dos quais eu tenho conhecimento: "Eu sei quem matou Laura Palmer."


Apesar do mistério do assassinato de Laura Palmer ter sido apresentado no piloto da série, é neste segundo episódio que, com toda segurança, pode se dizer que Twin Peaks realmente começou, pois toda a mitologia da série se desenvolve a partir do sonho – cujas cenas foram retiradas do final alternativo filmado para o piloto – do agente Cooper no salão de cortinas vermelhas.

Esse episódio, tamanho o seu fator WTF David Lynch, é certamente uma das coisas mais estranhas – e interessantes – já produzidas para a TV. Também por isso é um divisor de águas, que acaba determinando se alguém continuará a acompanhar (ou não) o mistério do assassinato de Laura Palmer. Eu continuei e não me arrependi, mas vale reforçar: não é para qualquer um.

- Ouvindo: Phantogram - Mouthful of Diamonds

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