15 de fevereiro de 2016

De Volta a Twin Peaks - Segunda Temporada, Episódio 1

De Volta a Twin Peaks - Segunda Temporada, Episódio 1

Desde o incêndio na boate Elk's, em 1959, que Twin Peaks não vê tanta ação: Dale Cooper e o barra-pesada Leo Johnson foram baleados; Jacques Renault, até então um dos suspeitos de matar Laura Palmer foi assassinado; a Serraria Packard pegou fogo, deixando Shelly Johnson e Pete Martell intoxicados com a fumaça, além de Catherine Martell desaparecida; para terminar, Nadine entrou em coma após uma tentativa de suicídio por overdose de calmantes.


Joseph Fink, um dos criadores do divertido Welcome to Night Vale, disse em uma entrevista ao influente Pop Culture Happy Hour que não há como você tratar o estranho como um quebra-cabeças a ser resolvido, pois a solução pode acabar sendo decepcionante como em Lost. David Lynch, que nunca gostou de explicar o sentido por trás de suas obras, por mais crípticas que fossem, encheu Twin Peaks de elementos bizarros, e eles são o que são e não precisam de explicação; o maior mistério da série, inclusive, nunca teria desfecho, como sabem bem os três leitores deste blog. Mas não era bem isso que os espectadores queriam...

A primeira temporada de Twin Peaks foi rodada livre das expectativas do público e da pressão da emissora, mas, ainda assim, nota-se um ímpeto dos roteiristas e diretores convidados em fazerem a história andar em um ritmo maior do que David Lynch, afastado da série por conta das filmagens de Coração Selvagem, gostaria. O maior exemplo disso é o season finale dirigido por Mark Frost, com sua quantidade um pouco exagerada de cliffhangers.


O início da segunda temporada de Twin Peaks tem Lynch de volta ao comando, e o resultado não poderia ser mais... arrastado. Isso não quer dizer que o episódio seja ruim, mas o ritmo é completamente diferente do esperado. A primeira cena, inclusive, estende-se por quase 10 minutos, deixando clara a mensagem do diretor: não adianta ter pressa.

Apesar deste primeiro episódio ter resultado em uma queda na audiência – diz a lenda que metade dos espectadores mudou de canal antes do final –, o retorno de David Lynch a Twin Peaks é muito positivo, pois com ele voltam os elementos mais marcantes e definidores da série: o humor que transita entre o sarcasmo e o puro pastelão, as situações bizarras, o sobrenatural e até mesmo o terror, estes dois últimos deixados um pouco de lado pelos roteiristas e diretores da primeira temporada.


Do ponto de vista da investigação principal, os agentes estabelecem uma linha do tempo para a noite em que Laura Palmer foi assassinada: até as 00h30 Laura estava com James Hurley, quando ela salta de sua moto e vai para a floresta, onde encontra-se com Leo Johnson, Jacques Renault e Ronette Pulaski. Juntos, os quatro sobem até a cabana de Jacques, onde chegam por volta da 1h. Lá consomem álcool e drogas, e Laura tem relações sexuais com Leo e Jacques. O canadense e o caminhoneiro brigam, Jaques desmaia e Leo deixa a cabana em direção a seu carro.

Um terceiro homem sobe até a cabana, de onde tira as duas garotas para levar até um vagão de trem abandonado. Lá amarra Laura e Ronette, deixando a segunda inconsciente com o golpe de um objeto não perfurante. Enquanto mata Laura, o homem não percebe ou deixa que Ronette conseguisse fugir. De forma semelhante ao que fez com Teresa Banks, o assassino enfia uma letra embaixo da unha de Laura. Antes de atirar o corpo da jovem no rio, o homem faz um monte de terra onde deposita o colar de Laura e um bilhete escrito com sangue: "Fogo caminha comigo".


Como já havia acontecido antes, as pistas mais importantes da investigação de Cooper vêm do sobrenatural, neste caso o contato que o agente tem com o Gigante, um personagem tão importante para a mitologia da série quanto o bizarro homenzinho de terno vermelho que fala ao contrário. Entre as coisas crípticas que diz, o Gigante informa que três pessoas viram o terceiro homem, mas Cooper conhece apenas uma delas e ela está pronta para falar; é Ronette Pulaski, que acordou do coma com uma visão bem assustadora do momento em que Laura era assassinada pelo homem de cabelos brancos, o misterioso BOB.

Não assustadora, mas bem desconcertante, é a cena da bela Andrey Horne em seu quarto no One-Eyed Jack's, aguardando a chegada do dono do local, que ela descobre ser seu próprio pai. Das três soluções para o dilema, a mais conservadora – um momento deus ex machina – foi escolhida, com a retirada de Benjamin Horne da cena no exato momento em que ele descobriria a filha ou, no pior caso, "conheceria" a nova garota, como tem o costume de fazer. Pode não ter sido a saída mais digna, mas ainda é melhor do que a alternativa mais... arrojada.


Apesar do ritmo mais lento e de momentos absurdos como a mudança repentina de personalidade de Donna, percebida e reforçada pela reação de outros personagens ao fato, este primeiro episódio é um dos melhores da série e abre a segunda temporada em grande estilo. É uma pena que o nível não foi mantido, mas essa conversa fica para os próximos capítulos.

- Ouvindo: Beat Happening - Cast a Shadow

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